Traficantes tinham chaves de celas e organizaram velório dentro de presídio em Eunápolis
Em delação premiada, ex-diretora do presídio disse que agiu para facilitar fuga de 16 presos
As investigações sobre uma fuga em massa no Conjunto Penal de Eunápolis, no extremo sul da Bahia, apontaram que traficantes tinham acesso a uma série de regalias, ficavam com as chaves das próprias celas e chegaram a organizar o velório da avó de um dos detentos, com a presença do corpo em um caixão, dentro do presídio.
As informações constam na ação penal que apura a associação entre políticos baianos e membros do PCE (Primeiro Comando de Eunápolis), facção ligada ao Comando Vermelho. A investigação faz parte da Operação Duas Rosas, conduzida pelo Ministério Público do Estado da Bahia.
O ex-deputado federal Uldurico Júnior foi preso na semana passada por suspeita de atuar para facilitar a fuga dos presos em troca de R$ 2 milhões. O elo entre o político os traficantes seria a então diretora do presídio, Joneuma Silva Neres, indicada para o cargo pelo ex-parlamentar.
Em nota, a defesa de Uldurico diz que acusações são infundadas, e isso será provado. Também classificou a ação como uma “clara perseguição política” que acontece em ano eleitoral.
A assessoria de comunicação da Secretaria de Administração Penitenciária da Bahia foi procurada por e-mail e por mensagens desde a manhã de quinta-feira (23), mas não houve retorno.
Joneuma Silva Neres assumiu a direção do Conjunto Penal de Eunápolis em 14 de março de 2024 e permaneceu no cargo até dezembro do mesmo ano, sendo afastada após a fuga de 16 presos ligados à facção PCE. Ela foi presa em janeiro de 2025 sob suspeita de ter facilitado a ação dos criminosos.
Entre os presos que fugiram estava Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, líder do PCE. As investigações apontaram que Uldurico e Dada se reuniram em mais de uma ocasião dentro da sala da diretora do presídio.
As investigações apontam que Joneuma teria adotado uma série de medidas que beneficiaram os membros da facção PCE.
Os presos passaram a ter a acesso irrestrito a eletrodomésticos colocados na unidade, refeições diferenciadas, equipamentos sonoros, visitas íntimas nos pavilhões e livre circulação pelas dependências do presídio, inclusive com a posse das chaves das próprias celas.
Neste período, a então diretora do presídio autorizou a realização de um velório da avó do traficante Sirlon Risério da Silva, apontado como braço-direito de Dada, dentro da unidade prisional. O corpo seguiu em cortejo até o presídio, onde foi velado pelo preso e seus familiares.
Em depoimento no âmbito da colaboração premiada firmada com o MP-BA, Joneuma afirmou que concordou com a entrada do caixão, por entender que não era algo ilícito e seria uma atitude humanitária.
A fuga dos 16 presos aconteceu em dezembro de 2024. Os detentos foram concentrados em duas celas próximas em um dos pavilhões do presídio e escavaram o teto com o uso de uma furadeira.
Ao menos dois servidores do Conjunto Penal avisaram a diretora sobre um barulho do equipamento vindo das celas, mas Joneuma não adotou nenhuma providência para barrar o plano de fuga.
Em depoimento no âmbito da delação premiada, a ex-diretora afirmou que tinha conhecimento do planejamento para os presos escaparem. A fuga estava planejada para 31 de dezembro de 2024, período no qual Joneuma estaria de férias, mas os presos decidiram antecipar a execução do plano diante de boatos de uma possível transferência.
Após a fuga, as investigações indicaram que Dada estaria escondido no Rio de Janeiro por suas ligações com o Comando Vermelho. Na última segunda-feira (20), ele foi alvo da segunda fase da Operação Duas Rosas.
A polícia identificou o traficante escondido em uma casa alugada no Vidigal, mas ele conseguiu fugir durante a operação policial por uma passagem secreta na casa, deixando para trás familiares que estavam no imóvel.
O nome da operação faz referência ao termo usado pelo grupo criminoso para se referir a propina. Segundo a Promotoria, “rosa” era utilizada de forma codificada para se referir a dinheiro, aparecendo em diálogos com expressões como “quando as rosas vão chorar” ou “choram as rosas”.
A Secretaria de Administração Penitenciária da Bahia, responsável pelo sistema penitenciário estadual, é comandada por José Castro, indicado para o cargo pelo MDB. O partido se reaproximou do PT em 2022, quando passou a fazer parte da base do governador Jerônimo Rodrigues.
Uldurico Júnior era filiado ao MDB, partido pelo qual disputou a reeleição para a Câmara dos Deputados em 2022 e a prefeitura de Teixeira de Freitas em 2024, ambas sem sucesso. Deixou o partido na atual janela partidária e se filiou ao PSDB.